5.000 anos de história e a pressa de quem não tem tempo a perder: notas de quem voltou à China um ano depois

Durante uma visita à sede do Alibaba, vi um vídeo que resume a China melhor do que qualquer estatística. Era uma comparação entre duas edições da Gala do Ano Novo Chinês, a tradicional celebração transmitida pelo governo para centenas de milhões de pessoas. Na edição de 2025, robôs humanoides desfilavam fazendo movimentos básicos: cadenciados, coreografados, com aquele ar de demonstração de máquinas ainda sendo testadas em público. Na edição de 2026, os mesmos robôs estavam lutando kung fu com crianças no palco. Em apenas doze meses, saíram de passos ensaiados para artes marciais ao vivo, interagindo com humanos. E essa foi a grande lição da viagem: na China, um ano não é um ano. É um ciclo completo de evolução tecnológica. Robôs saíram do palco e entraram no shopping Os números ajudam a dimensionar. A China produziu mais de 773 mil robôs industriais em 2025 e concentra cerca de 54% das instalações globais. Mas o dado que realmente impressiona é outro: foram quase 13 mil robôs humanoides produzidos no mesmo ano, com mais de 80% das instalações mundiais acontecendo em território chinês. Só que estatística não captura o que eu vi num shopping center: uma loja da Unitree, entre marcas de moda e eletrônicos, vendendo robôs humanoides e quadrúpedes para o consumidor final. Hoje, comprar um robô na China é um programa de fim de semana. Por enquanto, o uso é mais lúdico do que prático, mas a julgar pela velocidade de evolução que presenciei entre uma Gala e outra, o robô doméstico fazendo serviços de casa está logo ali. A primeira loja de varejo dedicada inteiramente aos humanoides, a Unitree, já existe. O e-commerce virou conversa A segunda grande virada de um ano para o outro foi o conversational commerce. Em 2025, a IA generativa no varejo chinês ainda era assistente coadjuvante. Em 2026, ela virou a principal interface de compra. O exemplo mais claro é o do Alibaba com o Qwen, hoje o LLM aberto mais utilizado do mundo. No Taobao, o “AI Mode” transformou a jornada: o consumidor conversa, pede sugestões, refina preferências e fecha a compra sem nunca navegar por categorias ou filtros. Meu amigo Alberto Serrentino fez essa experiência: “pedi um hambúrguer, comprei um iPhone e reservei um quarto de hotel conversando com uma IA e ela resolveu tudo, do carrinho ao pagamento”. Não à toa, 70% dos consumidores já usam IA para fazer compras, e o live commerce atingiu 36% de todo o e-commerce chinês. A lógica inverteu de vez: não são mais consumidores buscando produtos, são produtos encontrando clientes. A vantagem estrutural: gente e aceitação Nada disso é acidente. A China forma 3,6 milhões de graduados em STEM por ano, 40% do total mundial, contra 820 mil dos Estados Unidos. São 1,3 milhão de engenheiros formados anualmente, dez vezes mais que os 130 mil americanos. Para efeito de comparação doloroso: o Brasil forma 40 mil engenheiros por ano e 120 mil advogados. Em patentes de IA, o placar é igualmente assimétrico: a China acumula 1,58 milhão de patentes registradas (38,6% do total mundial) e protocolou mais de 300 mil pedidos só em 2024, contra menos de 68 mil dos EUA. Mas o que mais me marcou não cabe em estatística: é a aceitabilidade do público. Lá, IA não gera desconfiança, gera orgulho e existe até um termo para isso, AI Pride. Crianças aprendem IA com material didático no ensino fundamental. Drones entregam comida em parques. Robôs circulam em lojas sem causar espanto. A tecnologia não é debate, é cotidiano. E os carros elétricos confirmam o padrão A liderança se repete sobre rodas. A China produziu entre 15,5 e 16 milhões de veículos elétricos em 2025, algo entre 71% e 75% da produção global. Dos 20,7 milhões de EVs vendidos no mundo, 12,9 milhões foram vendidos na China: de cada 10 elétricos vendidos no planeta, mais de 6 são vendidos lá. Metade dos carros novos no país já é eletrificada. A China sozinha vende mais veículos elétricos do que Estados Unidos, Europa e o resto do mundo somados. Um ano que vale uma década A pergunta que me fizeram quando voltei foi: “vale a pena ir à China de novo num intervalo tão curto?” Minha resposta: é justamente no intervalo curto que está o aprendizado. Visitar a China uma vez impressiona. Voltar um ano depois assusta, porque você percebe que a velocidade não é retórica, é método. Como diz um dos valores do grupo Alibaba: o melhor desempenho de hoje é a linha de base de amanhã. Saí do aeroporto em São Paulo com uma sensação estranha, que demorei a nomear. Não foi jet lag. É que eu não tinha atravessado apenas doze fusos horários, eu tinha voltado do futuro. E o mais inquietante: lá, esse futuro já é o presente de mais de um bilhão de pessoas.
10 obras que recomendo para entender melhor a IA

“Murta, o que você recomenda para entender mais sobre Inteligência Artificial?” — essa é uma das perguntas que recebo com frequência, seja de amigos ou do público nas minhas palestras. Em uma delas, costumo mostrar um slide com livros que me marcaram por explicarem algum conceito, aplicação ou aspecto histórico da IA. Mas como o tempo no palco é curto, nunca consigo comentar cada um como gostaria. Por isso resolvi escrever este artigo — um espaço vivo, que vou atualizando conforme novas leituras me impactam — com breves descrições das obras que mais contribuíram para minha visão sobre Inteligência Artificial. A Singularidade Está Mais Próxima – Ray Kurzweil Classificação: conceitual | Técnico: um pouco Kurzweil explora o ponto em que a inteligência artificial ultrapassará a humana, gerando uma transformação radical na civilização. Ele prevê a fusão entre biologia e tecnologia, onde humanos poderão ampliar suas capacidades mentais e físicas por meio de máquinas. O autor defende que a singularidade não é uma ameaça, mas uma oportunidade para transcender os limites da mente e da matéria. Nexus – Yuval Noah Harari Classificação: conceitual / civilizacional | Técnico: não Em Nexus, Harari expande suas ideias sobre a fusão entre humanos e tecnologia, descrevendo um futuro em que a inteligência artificial e a biotecnologia se tornam indistinguíveis da própria natureza humana. Esse livro mudou minha forma de enxergar o papel da informação, e é quase um contraponto ao livro de Kurzwweil acima. O autor argumenta que estamos entrando em uma era pós-humanista, na qual algoritmos compreenderão nossos desejos melhor do que nós mesmos. Com sua clareza habitual, ele alerta para os riscos éticos e políticos dessa nova etapa da civilização, onde o poder será determinado por quem controlar o “nexus” entre mente e máquina. A Próxima Onda – Mustafa Suleyman Classificação: conceitual / civilizacional | Técnico: não Co-fundador da DeepMind, Suleyman discute a era das “tecnologias fundacionais” e como a biotecnologia e a IA moldarão governos, economia e ética global. O livro alerta para o poder concentrado nas mãos de quem controla algoritmos e propõe novas estruturas de governança para evitar abusos. Ele combina análise técnica e reflexão política sobre o impacto civilizacional da IA. What is ChatGPT Doing – Stephen Wolfram Classificação: analítico | Técnico: totalmente Wolfram disseca o funcionamento interno dos modelos de linguagem, explicando como o ChatGPT transforma estatística e probabilidade em algo que parece raciocínio. O autor usa analogias matemáticas e computacionais para demonstrar que a IA não “pensa” como humanos, mas sim prevê palavras com base em padrões complexos. É uma análise técnica e acessível sobre o cérebro das LLMs. AI for Retail – François Chaubard Classificação: aplicado | Técnico: sim Chaubard aborda como a inteligência artificial redefine o varejo, otimizando estoques, precificação e experiência do consumidor. Ele demonstra que o uso estratégico de dados transforma cada interação em uma oportunidade de personalização e aumento de margem. Gostei da metodologia dos 3 Es na implementação da IA (Educar, Eplorar e Executar), e do foco no ROI. O foco é prático: usar IA para vender mais e operar melhor. Revolução Quântica – Michio Kaku Classificação: conceitual | Técnico: um pouco Kaku guia o leitor pela história da física quântica até sua fusão com a IA e a biotecnologia. Ele propõe que a próxima revolução tecnológica surgirá da união entre o mundo subatômico e o digital. Com linguagem clara, o físico mostra como a mecânica quântica pavimenta o caminho para computadores de próxima geração. Não foca tanto na explicação do que é computação quântica, e sim em suas aplicações. Inteligência Artificial no Varejo – Eduardo Terra Classificação: aplicado / prático | Técnico: não Terra traduz o impacto da IA na rotina do varejo brasileiro, mostrando casos reais de empresas que utilizam dados para prever demanda e personalizar ofertas. Extremamente acessível, e de leitura rápida, o livro foca na transformação cultural necessária para adotar tecnologias de forma efetiva. É um guia prático para líderes que desejam integrar IA ao dia a dia da operação. A Arte de GPTear – Rodrigo Murta Classificação: aplicado / prático | Técnico: acessível Foi o primeiro livro em português dedicado ao uso prático de modelos GPT. Nele ensino como conversar com IA de forma eficaz, criando prompts que geram valor real em negócios e aprendizado. A obra combina técnica, filosofia e storytelling, mostrando que dominar o diálogo com máquinas é a nova habilidade do século XXI. 2041 – Kai-Fu Lee Classificação: conceitual / aplicado | Técnico: acessível Kai-Fu Lee imagina dez histórias ambientadas em 2041, cada uma baseada em uma aplicação concreta da IA — de diagnósticos médicos a justiça automatizada. As narrativas unem ficção e realidade para ilustrar as implicações éticas e sociais do avanço tecnológico. É uma reflexão otimista e humana sobre o futuro moldado pela inteligência artificial. Excelente para iniciar no vocabulário da inteligência artificial. A Guerra dos Chips – Chris Miller Classificação: geopolítico / estrutural | Técnico: acessível Neste livro, Chris Miller revela como o domínio da fabricação de semicondutores se tornou o campo de batalha mais estratégico do século XXI. Ele narra a ascensão de empresas como TSMC, Intel e Samsung, e explica por que microchips estão no centro da rivalidade entre Estados Unidos e China. Com profundidade histórica e clareza geopolítica, Miller mostra que o futuro do poder global depende não apenas de armas ou petróleo, mas dos átomos de silício que movem a economia digital moderna.
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