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Da máquina de escrever à AI: provocações de Mário Sérgio Cortella no mundo da Inteligência Artificial

Da máquina de escrever à AI: provocações de Mário Sérgio Cortella no mundo da Inteligência Artificial

As provocações e reflexões de Mario Sergio Cortella no Looqday 2023 sobre a inteligência artificial e qual o seu impacto na sociedade.

Rodrigo Murta
Rodrigo Murta

06/09 |

Leitura: 9 min

Em busca de um provocador para o Looqday

Retomamos com força total o Looqday, o evento anual da Looqbox focado em tecnologia, inovação e Business Intelligence. Este ano, o tema do Looqday foi “Onde Dados e IA Falam a Sua Língua”. Nessa edição, nos desafiamos a ir além das discussões técnicas e trazer ao público reflexões mais abrangentes sobre o impacto de tecnologias emergentes, como a Computação Quântica e a IA Generativa, na sociedade.

Quem estaria à altura deste desafio? Eu tinha um nome em mente: Mário Sérgio Cortella. Mas ele aceitaria o convite? Ao compartilhar a ideia com a equipe, a primeira reação foi: “Seria incrível, mas não temos orçamento para trazê-lo”. De fato, o orçamento era uma limitação, mas tínhamos algo valioso: um diálogo instigante que eu sabia que interessaria a Cortella. Assim, pedi ajuda ao meu pai, Dr. Alipio Casali, filósofo da PUC e amigo de longa data de Cortella, para intermediar. Amigos amigos negócios à parte; seria totalmente compreensível se ele recusasse.

Enviei o convite, detalhando o tema do evento e expressando nosso desejo por um diálogo profundo entre “Inteligência Artificial” e “Inteligência Natural”, bem como seus impactos sociais. A ansiedade era palpável: ele aceitaria? Teria disponibilidade? Para minha surpresa e da equipe, Cortella mostrou-se extremamente solícito e aceitou o desafio.

Para alinhar nossas expectativas, tivemos uma conversa de 15 minutos algumas semanas antes do evento. Ele ainda não havia lido meu livro sobre ChatGPT, mas um amigo próximo o tinha feito. Cortella mencionou que achou meu tom “excessivamente entusiasmado” com relação à tecnologia. Expliquei o contexto do evento e reiterei que o palco seria todo dele para nos desafiar com suas provocações. E assim aconteceu.

Iniciando as Provocações

Era o final da tarde do dia 30 de agosto. Fabiana Schurhaus, diretora da IBM, acabara de dar uma excelente palestra sobre IA generativa, e Cortella estava pontualmente nos bastidores esperando para entrar. Fui então surpreendido: Cortella propôs ao meu time, sem que eu soubesse, fazer um bate-bola de 10 minutos comigo no final de sua palestra. O time ficou preocupado porque não estava combinado, mas eu achei o máximo (quem me conhece sabe que não gosto de combinar nada em entrevistas e painéis; acho que isso tira a naturalidade). Seria uma honra subir no palco com Cortella, ao mesmo tempo em que eu enfrentava o desafio de saber o que perguntar para ele diante das mais de 450 pessoas presentes em nosso evento.

Era meu momento de chamá-lo ao palco. Tinha uma minibiografia em mãos, mas preferi improvisar. Notei que Cortella tem 48 livros publicados, então brinquei, anunciando que, mantendo um ritmo de um livro por ano, aos 90 anos eu chegaria lá. Eram 17:00 e Cortella iniciou sua fala. Foram 40 minutos recheados de um jogo de palavras hipnótico, às vezes duro, sempre provocativo, mas nunca perdendo o bom humor. Sobrepondo camada sob camada, reflexões sobre reflexões, cruzando datas, locais, personalidades, times de futebol, histórias de família e de amigos, e silêncios que pareciam milimetricamente calculados, nocauteando nossas mentes com pausas para suas ponderações filosóficas.

Cortella iniciou falando: “Que audácia dessa geração atual, que tem a petulância de querer ser… (silêncio estratégico) feliz. Que quer qualidade de vida e, mais ainda, olha que absurdo, não se contentam apenas em querer ser felizes; também querem que os outros sejam.” Claro que nosso filósofo estava sendo sarcástico e iniciava ali seu fluxo de pensamentos. Não vou explorar aqui tudo o que foi dito, mas sim a história que mais me tocou: o caso de Emília.

A história de Emília

Emília foi um personagem fictício criado por Cortella, que usou o nome de sua avó. Ela é uma mulher de baixa renda que ganha dois salários mínimos por mês. Em 1970, morando em uma comunidade pobre, ela trabalha oito horas por dia como datilógrafa, utilizando máquinas mecânicas. Eis que surge uma nova tecnologia: uma máquina elétrica. Emília e seu patrão ficam animados; a digitação torna-se muito mais suave e a produtividade aumenta consideravelmente. Agora, Emília até consegue apagar o que escreve de forma muito mais prática do que antes. A tecnologia conquista o mercado, que rapidamente adota a novidade. Sim, Emília está mais produtiva e entrega muito mais do que entregava anteriormente, mas continua morando em uma zona de risco, trabalhando oito horas por dia e ganhando dois salários mínimos por mês.

A tecnologia não para. Depois do advento da máquina elétrica, surge o computador pessoal. Todo o trabalho de ajustar o papel, comprar fita e outros processos ligados ao mundo da máquina de escrever são virados do avesso. Novamente, Emília e seu patrão ficam deslumbrados com a tecnologia. A produtividade aumenta novamente e a escrita se torna mais flexível. Antes, você podia até apagar algo errado, mas não podia mudar a estrutura de um texto já digitado. Com a nova tecnologia, tudo isso agora é possível. Mais uma vez, a inovação — no caso, o PC — domina o mercado e é rapidamente adotada por todos. No entanto, apesar de todo esse ganho de produtividade, Emília continua morando em uma zona de risco, trabalhando oito horas por dia e ganhando dois salários mínimos por mês.

O PC foi apenas o início; então veio o avanço da Inteligência Artificial e da AI Generativa. Acho que já dá para entender onde Cortella quer chegar com sua provocação. Afinal, para quem a “tecnologia” está realmente trabalhando? Estamos fazendo o melhor uso dela? Somos melhores após as evoluções que estão ocorrendo? Considerando nosso momento atual, toda a produtividade trazida pela nova onda de AI Generativa aumenta nossa eficiência e possibilita criações antes inimagináveis para as máquinas. Como podemos garantir que as Emílias da vida não sejam excluídas do processo?

Enquanto chamava nossa atenção para estas questões, Cortella deixou claro que não é contra a tecnologia ou o avanço da IA, entre outros progressos que estão acontecendo. No entanto, ele enfatizou que nem toda evolução é positiva. Com um toque de ironia, ele brincou com a expressão técnica frequentemente registrada nos laudos de óbito: “Evoluiu para o óbito”, sublinhando que esse definitivamente não é o tipo de evolução que queremos para nós.

No palco com Cortella

Estávamos chegando ao final da nossa conversa e, em poucos minutos, eu estaria no palco junto com Cortella. Para mim, o mais impactante foi refletir sobre a história de Emília. É verdade que sou um entusiasta da tecnologia. Não que devamos perder o entusiasmo pela ciência, tecnologia e criatividade humana, mas é fundamental permanecermos alertas para que a empolgação não ofusque nosso pensamento crítico, nos deixando desatentos ao impacto dela nas questões mais humanas.

Ao subir no palco e antes de entrar em assuntos mais sérios, tinha uma curiosidade pessoal. No meio da palestra, fiquei honrado em saber que Cortella havia começado a ler o meu livro “Conversando com Robôs: a Arte de GPTear” e que sua esposa Cláudia já o havia lido por completo, com o livro repleto de anotações. Sei que nosso filósofo se orgulha de dizer que há coisas que faz questão de não fazer, como não dirigir e não usar o WhatsApp. Será que Cortella estava usando o ChatGPT? A resposta foi (silêncio estratégico) sim; Cortella tem explorado a solução e feito uso dela no dia a dia. Achei bacana a atitude curiosa do filósofo.

Entrando no assunto mais sério, comentei que adoraria colocar Cortella e Yuval Harari em um painel e ser o mediador da conversa. Como Yuval Harari não estava presente, imaginei uma pergunta que ele poderia apreciar. Recordei o posicionamento de Yuval explorado em seu livro “21 Lições para o Século 21”, onde ele argumenta que pior do que uma classe trabalhadora ser explorada é ela se tornar inútil. O que acontece quando não precisamos mais de pessoas para digitar, quando a IA já consegue escutar, resumir e organizar? Qual será o destino de Emília? Fará sentido implementar uma renda básica universal?

De forma muito mais elaborada do que minha escrita aqui, Cortella começou afirmando que a tecnologia deveria servir a nós, e não nos excluir ou segregar. Se ela exclui, algo está errado na forma como estamos utilizando-a. E sim, talvez a renda básica universal seja sim uma necessidade para confrontar o atual desequilíbrio na força de trabalho.

Reflexões finais

Eu não tenho as respostas, mas, como tenho destacado em dias de discussão sobre GPT, antes de pensarmos em boas respostas, precisamos saber quais são as boas perguntas a serem feitas. Certamente, Cortella é um mestre em levantá-las. Deixo aqui minha pergunta, que ficou ecoando após a fala impactante do filósofo: Em tempos de crescimento exponencial da nossa capacidade tecnológica, em que temos IA Generativa escrevendo poemas, planos de viagens a Marte e Computação Quântica em operação, como fazer para que as Emílias não continuem morando em zonas de risco, trabalhando oito horas por dia e ganhando dois salários mínimos por mês?

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Autor

Rodrigo Murta

CEO e cofounder Looqbox, autor de ‘Conversando com Robôs: a Arte de GPTear’

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