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5.000 anos de história e a pressa de quem não tem tempo a perder: notas de quem voltou à China um ano depois

5.000 anos de história e a pressa de quem não tem tempo a perder: notas de quem voltou à China um ano depois

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Rodrigo Murta

17/06 |

Leitura: 5 min

Durante uma visita à sede do Alibaba, vi um vídeo que resume a China melhor do que qualquer estatística. Era uma comparação entre duas edições da Gala do Ano Novo Chinês, a tradicional celebração transmitida pelo governo para centenas de milhões de pessoas. Na edição de 2025, robôs humanoides desfilavam fazendo movimentos básicos: cadenciados, coreografados, com aquele ar de demonstração de máquinas ainda sendo testadas em público.

Na edição de 2026, os mesmos robôs estavam lutando kung fu com crianças no palco. Em apenas doze meses, saíram de passos ensaiados para artes marciais ao vivo, interagindo com humanos. E essa foi a grande lição da viagem: na China, um ano não é um ano. É um ciclo completo de evolução tecnológica.

Robôs saíram do palco e entraram no shopping

Os números ajudam a dimensionar. A China produziu mais de 773 mil robôs industriais em 2025 e concentra cerca de 54% das instalações globais. Mas o dado que realmente impressiona é outro: foram quase 13 mil robôs humanoides produzidos no mesmo ano, com mais de 80% das instalações mundiais acontecendo em território chinês.

Só que estatística não captura o que eu vi num shopping center: uma loja da Unitree, entre marcas de moda e eletrônicos, vendendo robôs humanoides e quadrúpedes para o consumidor final. Hoje, comprar um robô na China é um programa de fim de semana. Por enquanto, o uso é mais lúdico do que prático, mas a julgar pela velocidade de evolução que presenciei entre uma Gala e outra, o robô doméstico fazendo serviços de casa está logo ali. A primeira loja de varejo dedicada inteiramente aos humanoides, a Unitree, já existe.

O e-commerce virou conversa

A segunda grande virada de um ano para o outro foi o conversational commerce. Em 2025, a IA generativa no varejo chinês ainda era assistente coadjuvante. Em 2026, ela virou a principal interface de compra.

O exemplo mais claro é o do Alibaba com o Qwen, hoje o LLM aberto mais utilizado do mundo. No Taobao, o “AI Mode” transformou a jornada: o consumidor conversa, pede sugestões, refina preferências e fecha a compra sem nunca navegar por categorias ou filtros. Meu amigo Alberto Serrentino fez essa experiência: “pedi um hambúrguer, comprei um iPhone e reservei um quarto de hotel conversando com uma IA  e ela resolveu tudo, do carrinho ao pagamento”. Não à toa, 70% dos consumidores já usam IA para fazer compras, e o live commerce atingiu 36% de todo o e-commerce chinês. A lógica inverteu de vez: não são mais consumidores buscando produtos, são produtos encontrando clientes.

A vantagem estrutural: gente e aceitação

Nada disso é acidente. A China forma 3,6 milhões de graduados em STEM por ano, 40% do total mundial, contra 820 mil dos Estados Unidos. São 1,3 milhão de engenheiros formados anualmente, dez vezes mais que os 130 mil americanos. Para efeito de comparação doloroso: o Brasil forma 40 mil engenheiros por ano e 120 mil advogados.

Em patentes de IA, o placar é igualmente assimétrico: a China acumula 1,58 milhão de patentes registradas (38,6% do total mundial) e protocolou mais de 300 mil pedidos só em 2024, contra menos de 68 mil dos EUA.

Mas o que mais me marcou não cabe em estatística: é a aceitabilidade do público. Lá, IA não gera desconfiança, gera orgulho e existe até um termo para isso, AI Pride. Crianças aprendem IA com material didático no ensino fundamental. Drones entregam comida em parques. Robôs circulam em lojas sem causar espanto. A tecnologia não é debate, é cotidiano.

E os carros elétricos confirmam o padrão

A liderança se repete sobre rodas. A China produziu entre 15,5 e 16 milhões de veículos elétricos em 2025, algo entre 71% e 75% da produção global. Dos 20,7 milhões de EVs vendidos no mundo, 12,9 milhões foram vendidos na China: de cada 10 elétricos vendidos no planeta, mais de 6 são vendidos lá. Metade dos carros novos no país já é eletrificada. A China sozinha vende mais veículos elétricos do que Estados Unidos, Europa e o resto do mundo somados.

Um ano que vale uma década

A pergunta que me fizeram quando voltei foi: “vale a pena ir à China de novo num intervalo tão curto?” Minha resposta: é justamente no intervalo curto que está o aprendizado. Visitar a China uma vez impressiona. Voltar um ano depois assusta, porque você percebe que a velocidade não é retórica, é método. Como diz um dos valores do grupo Alibaba: o melhor desempenho de hoje é a linha de base de amanhã.

Saí do aeroporto em São Paulo com uma sensação estranha, que demorei a nomear. Não foi jet lag. É que eu não tinha atravessado apenas doze fusos horários, eu tinha voltado do futuro. E o mais inquietante: lá, esse futuro já é o presente de mais de um bilhão de pessoas.

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Autor

Rodrigo Murta

CEO e cofounder Looqbox, autor de ‘Conversando com Robôs: a Arte de GPTear’

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