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 IA, Conexão e Consciência: Os Grandes Debates do SXSW 2026

 IA, Conexão e Consciência: Os Grandes Debates do SXSW 2026

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Daniel Murta

25/05 |

Leitura: 6 min

Mais uma vez participei do South By Southwest (SXSW), um dos maiores festivais de inovação, música e cinema do mundo, realizado em Austin, no Texas. O evento reuniu mais de 309 mil participantes de 95 países e contou com 3.409 palestrantes para debater o futuro da criatividade e da tecnologia. Com o foco central na inovação, os debates que mais me impactaram este ano se concentraram em três pilares: Inteligência Artificial, Saúde Social & Conexão e Consciência. Compartilho aqui o que ouvi, refleti e estou levando de volta para o meu dia a dia.

Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma novidade técnica para se tornar um motor de mudança cultural. Como a IA está tornando a execução de tarefas cada vez mais barata, percebi que o verdadeiro diferencial humano e das organizações passa a ser o fator cultural. A coordenação agora se delega à IA, enquanto a cultura permanece com os humanos. Esse barateamento chegou ao ponto  em que prototipar se tornou mais barato do que fazer sessões de ideação em equipe. 

No entanto, a mudança mais profunda está acontecendo em silêncio: a internet está sendo reconstruída para ser usada por agentes virtuais, não por pessoas. Assim como estamos caminhando para o lights out industrialism, um mundo onde fábricas funcionam sozinhas, sem trabalhadores, o que levanta grandes dúvidas sobre o futuro do emprego e da humanidade. 

Diante disso, o conselho do festival é direto: mais importante do que aprender a usar as ferramentas de IA é mudar a forma de pensar. Em vez de apenas melhorar o que já existe com IA, é preciso criar sistemas completamente novos.

Apesar de todas essas incertezas, nem todo o futuro desenhado pela IA é sombrio e talvez o exemplo mais simbólico disso seja uma pergunta que parecia coisa de ficção científica: você já imaginou poder entender o que os animais falam? A promessa é que tudo o que puder ser traduzido, será traduzido, incluindo a linguagem de plantas e animais. Com os embeddings funcionando como uma ponte técnica para decifrar esses idiomas ainda desconhecidos, a IA assume um caráter empático e nos aproxima de outros seres vivos. No fim, talvez seja esse o convite que a tecnologia nos faz: em vez de apenas automatizar o que já conhecemos, expandir radicalmente o que somos capazes de compreender.   

A Crise de Conexão e a Saúde Social

Outro ponto de atenção que levei do SXSW foi sobre a nossa infraestrutura de relacionamentos: a conexão deixou de ser apenas uma “soft skill” e passou a ser vista como infraestrutura básica. Não à toa,  a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu recentemente a saúde social como um pilar fundamental, posicionando-a ao lado da saúde física e mental. 

Os dados apresentados explicam a urgência do tema:

  • Cerca de 871 mil mortes por ano já são atribuídas à solidão.
  • 1 em cada 4 pessoas no mundo se sente sozinha com frequência.
  • Quase metade da Geração Z (49%) relata ter algum tipo de relação com uma IA, seja ela de amizade ou amorosa.
  • 37% das pessoas consideram possível se apaixonar por uma Inteligência Artificial.

Nesse cenário de vulnerabilidade, a IA surge como uma potencial ameaça ao tecido social. À medida que substitui interações humanas autênticas, ela pode gerar ainda mais solidão e dependência. O grande risco é o afeto se tornar um produto vendido por assinatura, o que foi resumido em uma dura frase dita no evento: “Solidão é o mercado, dependência é o produto”.  Esse comportamento se reflete em um fenômeno crescente: a busca por itens dos anos 90 e anteriores. A análise feita por Jennifer B. Wallace é de que estamos voltando a dar importância para esses objetos porque no fundo estamos procurando a sensação de conexão que sentíamos naquela época.

Inspirados nessa ideia de pertencimento, estamos repensando algumas práticas internas aqui no Looqbox. Uma delas é a substituição das avaliações 1:1 por feedbacks 360, criando mais conexão interpessoal e reforçando o senso de grupo entre os looqers. 

Consciência e Novas Fronteiras da Mente

Por fim, acompanhei as palestras sobre os mistérios da mente humana e os estados alterados de consciência. Partindo da premissa de que a consciência é um fenômeno privado e que atribuí-la aos outros é sempre uma inferência , debateu-se como duas pessoas podem experienciar a mesma realidade de formas completamente distintas.

Nesta trilha, a legalização da psilocibina, que já é realidade em 3 estados norte-americanos, com mais 12 a caminho,  ganhou destaque, em palestras como “Decoding Consciousness, Psychedelics and the Mind” (Christof Koch) e “The Founder ‘s Edge” (Jeremy Falcon). A legalização de terapias com psilocibina já é uma realidade desde que conduzidas por um facilitador credenciado.

Longe do estigma, essas substâncias estão sendo estudadas seriamente por sua capacidade de quebrar padrões emocionais e atuar como alavancadores de criatividade, resiliência e liderança consciente. Grandes nomes da tecnologia, como Steve Jobs, Bill Gates e Sam Altman (OpenAI), assim como vencedores do Prêmio Nobel, como Francis Crick e Kary Mullis, já declararam publicamente o uso de psicodélicos,como LSD e psilocibina, para potencializar o processo criativo e o desenvolvimento pessoal.

No geral, a experiência da consciência alterada foi discutida por Christof Koch como algo profundamente transformador, capaz de trazer:

  • Um senso de sagrado e unidade.
  • A dissolução completa da fronteira entre o mundo interno e externo.
  • A perda do senso de si, conhecida como “ego dissolution”.
  • A transcendência de noções de tempo e espaço.
  • Uma positividade desvinculada de qualquer causa externa.
  • O aumento da neuroplasticidade, possibilitando reinterpretar experiências passadas e extrair novos aprendizados.

No centro de todos esses debates, existe uma tensão que vai além da tecnologia. A inteligência artificial pode baratear a execução e assumir a coordenação, mas não carrega o que sustenta a humanidade: cultura, pertencimento e sentido. Quanto mais delegamos às máquinas, mais somos chamados ao que nos torna humanos, a forma como nos relacionamos, as histórias que criamos e a profundidade com que habitamos a própria mente. 

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Autor

Daniel Murta

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